Mostrando postagens com marcador Epistemologia da Psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Epistemologia da Psicologia. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2015

Auto-eco-organização: Como o mundo se relaciona com sua organização psicológica



O conceito de Auto-eco-organização é de autoria de Morin (2007) e expressa uma nova maneira de enxergar a indissociabilidade entre o sujeito e mundo. Para compreender esta ideia, há que se referir também há outro conceito, o do Princípio Hologramático, que é o que afirma que a mais infinitesimal parte contém todos os elementos do todo. Ou seja, é uma forma de compreender que, o sujeito está no mundo, mas o mundo está no sujeito, em uma relação recíproca de constitucionalidade.

Isso quer dizer que o ser humano se organiza conforme se relaciona com o ambiente em que vive, e isso tem por consequência, efeito em seu comportamento. Por exemplo: O “Ciclo Circadiano” é um conceito importante para entendermos a ideia de auto-eco-organização, pois este nos dá a mostra de como a luz solar, por exemplo, regula nossos tempos de sono-vigília (isso porque organizamos o nosso “estar acordado”, geralmente, para coincidir com a luz do dia). O mesmo pode ocorrer em relação ao humor do ser humano quando, por exemplo, em países nórdicos, as pessoas são mais propensas à depressão em períodos de inverno (tal fenômeno se conhece por “Depressão Sazonal de Inverno”), justamente pela falta de sol que enfrentam – Isso porque a estrutura de nosso corpo que é responsável por tal relógio se localiza no Hipotálamo (região cerebral) e é conhecida por Núcleo Supraquiasmático, sendo uma área estimulada através de fótons (Luz), que são recebidos através dos olhos e decodificados como informações importantes no/para o cérebro.

Outro exemplo importante é o efeito do tempo é conhecido pelas mulheres: A menstruação! Ela possui um ritmo, um ciclo, e este é responsável por alterar, inclusive, desejos sexuais, humor, relações interpessoais, tudo por conta da regulação hormonal... Além de causar cólicas e outras intempéries que a poderiam se caracterizar como “um esquema de punição intermitente de razão fixa”... Este ritmo, geralmente próximo ao mensal (daí o nome “MENS-truração”, do latim mestrumms) faz parte dos ciclos ultradianos.

Ou seja, esta série de ciclos, nada mais é do que uma das maneiras como nos relacionamos com o mundo (e ele conosco), e como isso afeta (ou até determina) o nosso comportamento e a maneira como estruturamos a nossa organização psicológica. Tal conceito é extremamente importante pois dá conta da existência de diversas instâncias que afluem na formação da personalidade e do comportamento humano como se estes fossem um imenso quebra cabeças que só fizesse sentido quando completo: Todas as peças são necessárias para compreendê-lo, e isso só será feito na medida em que compuserem um todo. Daí a necessidade de reorientarmos a nossa ciência de um paradigma que simplifica e reduz o objeto, para um paradigma que amplia a visão sobre ele, pois, olhando para a peça, perde-se a “Gestalt” (forma) do todo, o que altera grandemente a nossa forma de ver o mundo.

Mas o conceito de Auto-Eco-Organização não se relaciona somente com o tempo: Ele pode estar relacionado também à maneira como nos relacionamos com a topografia do local onde vivemos, pois tiveram que desenvolver dinâmicas diferentes para lidarem com climas/ambientes/relevos diferentes - os esquimós, por exemplo, se comportam de maneira diferente do que os beduínos que vivem nos desertos. E tal conceito também pode ser compreendido nas dinâmicas das relações interpessoais, afinal de contas, o conjunto de relações em que vivemos forma uma grande teia de relações humanas.

Este conceito nos indica a ideia da multideterminação do comportamento humano. Esta que foi abordada, de várias maneiras, sob pontos de vista, linguagens, epistemologias e metodologias diferentes: Kurt Lewin (1890-1947) ao escrever a teoria de campo; Carl Gustav Jung (1875-1961) ao defender que o homem não era governado por um "único princípio psicológico" (como o do prazer ,freudiano; ou do poder, adleriano); Lev Vigotski (1896-1934) ao teorizar sobre as entradas do desenvolvimento; Urie Bronfrembrener (1917-2005) ao escrever a teoria contextual, dentre inúmeros outros. Ou seja, o problema da mutlideterminação do comportamento feat. psiquismo humano já tem sido apontado por vários autores, mesmo que sob teorias conflitantes, mas representando um princípio geral.

Tais ideias fazem parte do Paradigma da Complexidade, que é idealizado para um reforma do pensamento no século XXI, de modo a unir ramos do conhecimento que parecem desconectados, mas que quando juntos fornecem um grande e nova compreensão para o conhecimento: Este ensaio por exemplo, foi escrito sob as mãos da Psicologia, Neurologia, Geografia, Cronobiologia, Linguística e Filosofia, para entregar uma nova compreensão de, como coisas, mesmo que pareçam muito distantes (Afinal de contas, o que o sol tem a ver com a depressão?!) podem afetar o comportamento humano. Por isso, há sim, que se repensar nossa visão, sobre o que conhecemos por psicologia no século XXI.

Referência
Morin, E. (2007). Introdução ao pensamento complexo, 3ª Ed. Porto Alegre: Sulina.

----------------------------------
Imagem: Extraída do Google Imagens

----------------------------------
Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Breves considerações sobre o objeto de estudo nas epistemologias da Psicologia



Esta é uma das questões mais polêmicas e controversas na psicologia, e ela começa pela própria definição de nossa ciência: Afinal de contas, que tipo de ciência é a psicologia? Se olharmos bem onde a Psicologia se situa nas áreas de concentração nas Universidades brasileiras, grande parte delas a situará no campo das ciências humanas, outra parte a situará na área de Ciências da Saúde, e ainda uma pequena parte no campo das Ciências Sociais... Porém, há casos mais interessantes: O de uma grande universidade brasileira que, na década de 80 e 90 ainda situava a psicologia como uma Ciência Exata... Ora, o motivo disso é simples: Havia uma grande influência das ideias de cientificidade no modelo positivista, fruto de uma longa história de dependência de modelos científicos, sociais e culturais norte-americanos.

Todavia, o modelo ao qual nosso país estava habituado foi gradativamente dando espaço à novas formas de pensamento, com uma maior difusão do pensamento europeu e soviético no país, com especificidade para os modelos fenomenológicos e marxistas, e outros modelos pós-modernos. O que acontece é que estas teorias que começaram a circular pelo país trouxeram com elas novas reflexões, das quais as bases advinham do campo epistemológico.

A psicologia positivista àquela época, com seu modelo naturalista, mecanicista e reducionista trazia uma visão de ciência em cujo repertório constavam termos como “Objeto de Estudo”, “neutralidade”, “Separação Pesquisador-Objeto” e coisas do gênero.

O pensamento fenomenológico, corrente de pensamento muito fecunda na Europa, veio para o Brasil especificamente através de correntes humanistas, existencialistas, mas principalmente através da Gestalt Terapia, e possuía uma visão diferente de mundo, onde o objeto não era visto isoladamente, mas em RELAÇÃO com o mundo, e este passava a nominar-se FENÔMENO. Esse foi um passo importante para a quebra da hegemonia das ideias positivistas nas ciências.

O pensamento marxista, germinado na antiga União Soviética durante muitos anos, adquiriu maior força acadêmica na América Latina após a crise na psicologia social da década da década de 70. Esta forma de pensamento trouxe a ideia de que a psicologia não tratava simplesmente de um objeto, mas sim de um processo. E neste sentido, podia-se compreender que os processos eram “fenômenos em movimentos” que só seriam acessíveis através da dialética.

A partir dos anos 50, uma revolução começou a ocorrer no pensamento mundial: Começava a cibernética! Este movimento cujo pensamento nasce nas ciências da informação/informática foi se desenrolando em etapas que ficaram conhecidas como “ondas”. A segunda onda da cibernética, especificamente, influenciou bastante o pensamento psicológico a partir da década de 1970, que se relacionou especificamente com outras três correntes de pensamento epistemológico que deram novos rumos ao pensamento da psicologia: O construtivismo, o pensamento sistêmico e a teoria da complexidade.

O construtivismo possui várias influências e várias linhas de pensamento, dentre os quais, um dos mais famosos é o suíço Jean Piaget (1896-1980), psicólogo desenvolvimentista, criado da epistemologia genética. Este pensamento basicamente entende que o objeto é CONSTRUÍDO a partir da ação do sujeito sobre ele.

O pensamento sistêmico por sua vez, entende não um objeto de estudo, mas sim um sistema, que é um conjunto de fatores que se influenciam em interações mútuas. Ou seja, o objeto se tornou múltiplo, neste sentido.

O pensamento complexo caracteriza-se por se aberto, onde o objeto o é igualmente. É um objeto-processo-sistema-fenômeno, que ocorre em um tempo espaço concreto que está em constante construção e desconstrução. O objeto é configuracional, pois depende de uma série de arranjos que se encontram disponíveis no ambiente. Desta forma o objeto é auto-eco-organizado, ou seja, depende da sua relação com o tempo, espaço e com a materialidade para se constituir. É uma teoria de emaranhados que se baseia na cibernética, no pensamento sistêmico, na fractalidade e na caoticidade do mundo. Descrevendo-a assim parece ser muito complicada, mas o fato é que difícil mesmo é o caminho de abandono de crenças positivistas que foram arraigadas no pensamento científico ocidental durante décadas, para a compreensão de novas formas de pensamento.

Em suma, o que apresento de forma bastante simples é que, mesmo que não pareça, existem várias formas de se pensar a psicologia, construindo um corpo de saberes plural e multiparadigmático e que nós, enquanto pensadores desta ciência, devemos voar para fora das caixas que limitam o nosso pensamento.

----------------
Imagem: Extraída do Google Imagens
----------------

Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente é Pesquisador pela CAPES e presidente da Rede Goiana de Psicologia.