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sábado, 2 de maio de 2015

Pais como co-terapeutas: a contribuição da psicologia comportamental no processo de desenvolvimento dos filhos



É cada vez mais frequente receber em meu consultório pais desesperados pelos comportamentos dos seus filhos. “Toma, dê um jeito nele” nos entregam na esperança de que possamos oferecer a forma perfeita para os males infantis. A verdade, é que infelizmente, ou felizmente, não existe manual para criar pais e filhos perfeitos. O que nós temos em mãos, são pesquisas de mais de 50 anos, com resultados comprovados, de que sim, um pouco de engenharia comportamental oferece respostas claras e precisas sobre como a criança aprende a se comportar e o que é mais importante para o desenvolvimento infantil nas interações entre filhos e pais.

O que queremos para os nossos filhos?

Responsabilidade, autoestima elevada, assertividade, autocontrole, autonomia, boas habilidades sociais, que sejam amados, confiantes, empáticos, felizes... Mas talvez, a verdadeira pergunta seja qual pedaço da torta de nossas vidas estamos dispostos a abrir mão para desenvolver, passo a passo, estes comportamentos em nossos filhos. Nada por ser feito a não ser pouco a pouco.

A ideia de treinar pais surgiu pensando no fato de que existem escolas e treinamentos para diversas áreas da vida, menos uma das tarefas mais difíceis e para a qual menos somos preparados: Ser pais! Os pais e mães são a maior fonte de modelos para os filhos, e nada melhor do que contar com o apoio dos mesmos como CO-TERAPEUTAS no processo de psicoterapia infantil.

A dificuldade que os pais apresentam, ao chegar à clínica, de descrever os comportamentos adequados do filho é explicada pelo simples fato de que o que está inadequado, geralmente, grita aos olhos, incomoda, e assim, tende a chamar mais atenção. Dessa forma, os pais começam a direcionar sua atenção (sendo está, o que os filhos mais desejam) apenas para os comportamentos inadequados, reforçando a probabilidade de que o filho se comporte novamente assim, quando estiver disposto a conseguir a atenção dos pais. Diante de tantos comportamentos inadequados, só resta à punição.

Palmada virou lugar comum, e muitos pais dizem “eu também levei uns tapas e estou aqui vivo e bem”.

As pessoas dizem que um tapinha não faz mal nenhum e que é bem diferente do espancamento ou mesmo de uma surra. Porém, é importante frisar que a palmada e o espancamento têm o mesmo princípio: Usar a força e o poder para intimidar e punir uma pessoa!

Se você bate em seu filho, qual a primeira coisa que está ensinando? Que a violência é capaz de resolver problemas, que bater é uma forma correta de agir e de expressar sua raiva.

Do ponto de vista ético, a punição física é condenável, uma vez que existem diversas sanções para pessoas que agridem o seu semelhante. Por que, então na relação familiar, permite-se, tolera-se e até incentiva-se que os pais batam em seus filhos?

Como alternativa a punição corporal, a psicoterapia comportamental oferece uma série de técnicas que podem auxiliar os pais de forma efetiva a implantação e manutenção de comportamentos adequados no repertório de seus filhos. Se há regras adequadas, consistentes e bem explicadas, com consequências caso não sejam cumpridas, fica cada vez menos provável a escolha por emissão de comportamentos inadequados.

Muitos pais talvez já tenham utilizado algumas técnicas na criação dos seus filhos e relatam frustação devido à falta de sucesso em aplica-las. Um questionamento mais profundo nos revela que a palavra chave no sucesso da aplicação de técnicas se resume em um aspecto: Consistência. Toda e qualquer ação em prol do desenvolvimento dos filhos precisa ser consistente, a criança precisa saber que o que é colocado hoje, será cobrado amanhã, e depois, e assim sabe que pode se comportar da forma desejada, pois seus pais não mudarão de ideia. A consistência gera confiança, pois se cria uma rotina onde a criança sabe o que vai acontecer, e por isso, tem liberdade para se comportar.

Parece contraditório falar de regras e liberdade, mas ao estabelecer um quadro fixo de regras e tarefas, dentro deste quadro sobra um enorme espaço onde a criança pode e deve se comportar com toda a sua individualidade, sendo assim, reforçada pelos pais.

Quando estabelecemos uma relação e raízes pautadas no respeito, em regras, amor e envolvimento, oferecer asas para que nossos filhos cresçam com autonomia é um caminho natural e gratificante. Os filhos são como pandorgas, só temos certeza que nosso trabalho está completo quando visualizamos, com um misto de tristeza e alegria, ela solta e livre plainando no ar.

Referências

Clark, L. (2008). SOS Ajuda para pais (editora cognitiva)


Pinheiro, Haase & Del Prette (2002) – Pais como co-terapeutas – treinamento em habilidades sociais como recurso adicional.

Weber, L. (2012). Eduque com carinho – para pais e filhos (Juruá)

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre a autora

Laura Gomes de Oliveira, é psicóloga (CRP 09/9137) pela PUC Goiás (Brasil), com estágio em clínica Analítico Comportamental. Aluna especial do mestrado em psicologia da Universidade Federal de Goias (Brasil), possui experiência em psicologia organizacional e, atualmente trabalha como psicóloga clínica comportamental na Clínica Espaço Absolut.

sábado, 25 de abril de 2015

Porque algumas crianças choram tanto?



Descartando as questões de fome e saúde, as crianças choram tanto pelo simples fato de que APRENDERAM A CHORAR COMO FORMA DE SE COMUNICAR! Em verdade, o choro é um componente inato do comportamento humano (ou seja, já nasce com a criança), mas ele passa a adquirir contornos sociais na medida em que a criança aprende que ele mobiliza os pais (ou responsáveis) para a satisfação de suas necessidades e desejos; ou seja, a criança entende que se ela chorar mobilizará as pessoas ao seu redor para a satisfação de suas necessidades.

É uma questão de reforçamento: se a criança chorar, e por conta de seu choro tiver as suas vontades satisfeitas, ela irá chorar sempre, de modo que o comportamento de chorar será fortalecido.

Os pais devem ter cuidado de verificar sempre a saúde da criança, se a mesma está alimentada, se está higienizada ou se não existe nenhum outro fator externo que esteja causando incômodo, esses também são motivos para os temíveis choros das crianças. Todavia os pais também não devem descartar a possibilidade de as mesmas estarem chorando como simples maneira de mobilizá-los para a satisfação de suas necessidades.

Uma coisa importante de lembrar é que as crianças ainda não aprenderam a clara estipulação de limites, então, muitas de suas vontades serão nada menos que a mais pura necessidade de manipular o mundo ao seu redor, pelo simples fato de não terem aprendido que elas não são o centro do universo.

Esta é uma etapa difícil na formação dos filhos, mas com muita paciência e calma ela pode ser superada, e os pais devem ficar atentos para perceberem se não estão sendo controlados pelas vontades irracionais dos filhos, lembrando que não é saudável atender a todas as vontades dos filhos em toda e qualquer hora. A criança deve aprender desde cedo de que existem limites para as suas vontades e que existem outras vontades (de outras pessoas) no mundo, e que estas não estão subordinadas às suas.

Neste sentido, o que os pais devem aprender é que, em um determinado momento da vida de seu filho, principalmente onde ele já começa a esboçar os primeiros balbucios, há maneiras de ensinar a criança de que existem outras formas de comunicação que não seja somente o choro. Esta pode ser a diferença entre criar um filho compreensivo e um filho intolerante.

Neste sentido, há muito mais da habilidade dos pais em serem educadore, desde o primeiro ano de vida, do que os mesmos podem imaginar: não devemos desprezar a capacidade das crianças de serem sujeitos que aprendem, ainda que na mais tenra idade.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil) com graduação sanduíche e formação em Terapia Sistêmico-Relacional de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Como não criar um filho “chantagista"



Uma das coisas que tenho notado na atualidade é a constante dificuldade dos novos pais em lidar com a criação dos filhos: Temos criado uma era do “filhocentrismo” onde as crianças dominam o lar, ditam as regras de conduta e condicionam severamente o comportamento dos pais. Quem não conhece o famoso discurso “Filho é uma bênção de Deus” ou “Filho é a melhor coisa do mundo”? E quem também não conhece “não estou dando conta do meu filho” ou meu filho “é muito inquieto e agitado”... Pois bem!

Tenho notado que existe uma incrível relação entre diversos fenômenos encontrados na infância tardia e na adolescência, que são socialmente deletérios, que poderiam ser facilmente evitados se os pais tivessem um pouco mais de habilidades no processo de educação dos filhos: E preste bastante atenção ao fato de que educação não é simplesmente aquele ato formal de alfabetizar os filhos, mas sim a prática cotidiana de transmitir-lhes cultura para viver em sociedade. Neste sentido, a educação começa a partir do nascimento, sendo primeiramente de responsabilidade dos pais.

Quando falo sobre filho “Chantagista” (note que uso o termo entre parênteses, para evidenciar que isso é um termo do senso comum), me refiro às crianças que tem o incrível poder de manipulação dos pais: Fazem o que querem, na hora que querem, e não podem ser contrariados, pois se o forem, logo aprontam uma maneira de constranger socialmente ou psicologicamente os pais de alguma maneira (quem não conhece as “birras” de supermercado, ou coisas do tipo), obrigando os pais a cederem aos seus caprichos. Mas porque isso ocorre?

Simplesmente pelo fato de que foram ensinados! Você, pai desavisado, poderia se questionar: “Mas meu filho nem fala, nem anda, e já é desse jeito, como é possível?!”. Simplesmente porque nem toda aprendizagem é necessariamente um processo consciente, mas pode ser um processo de condicionamento. O que isso quer dizer? Quer dizer que, mesmo sem entender o que está fazendo, a criança pode desenvolver uma série de comportamentos porque foi “impelida” a fazer isso! E isso mostra que a educação começa extremamente cedo.

E cria-se com isso um ciclo cruel: Os pais que não aprenderam a educar os filhos, imprimindo neles seus vícios e transferindo as suas neuroses, acabam por puni-los futuramente por coisas que eles mesmos geraram. E assim, cria-se uma indústria da revolta, da violência e da delinquência.

Para entender como se livrar deste problema, longe de tentar fornecer uma receita universal para todos, pois em se tratando de ciências humanas (onde a psicologia se insere) cabe muito bem a máxima de que “cada caso é um caso”, passemos a entender que existem coisas simples que os pais podem fazer, que ajudam a ter filhos cada dia mais educados e menos tendentes ao ciclo perverso da violência que citamos anteriormente:

Aprenda que seu filho vai chorar, mas que nem sempre isso é ruim: Sim, o choro não é sempre uma maneira de comunicar que algo está errado, mas é a primeira forma que os bebês aprendem para interagir com o mundo! Por isso haverá sim situações em que seus bebês vão chorar porque estão com fome, porque estão com dor, porque estão com medo, ou porque simplesmente querem que você esteja perto (e isso não é necessariamente uma “prova que a criança te ama”, mas porque ainda não aprendeu a ficar sozinha depois de ter nascido). Os primeiros meses de vida são muito importantes para que a criança entenda que, estando fora da barriga da mãe, existe outra dinâmica, e que ela deverá aprender que não terá a sua mãe 24 horas por dia, vigilante, ao lado, oferecendo comida, calor, colo, etc. Há momentos em que é importante que a criança fique sozinha em seu berço. Ela irá chorar por vários motivos e é importante que se verifique se está tudo bem, mas estando com a saúde perfeita, alimentada, bem cuidada, não é todo choro que signifique que a criança necessite de alguma coisa com urgência. A criança aprende a esperar, a ter limites, e a entender que o mundo não gira ao redor dos seus comandos ainda muito cedo, por isso, é necessário entender esta dinâmica, para não ter um filho que toda vez que chora terá seus pais fazendo suas vontades, isso os fará chorar mais e mais e mais, sempre.

Aprenda que você não deve dar tudo aquilo que seu filho quer: Isso mesmo, ele precisa a entender a palavra “Não”! E isso começa desde cedo – crianças são curiosas e querem tocar, experimentar e provar tudo. Um exemplo disso é aquela criança com 8 meses de idade, que não pode comer qualquer coisa (pois não tem o sistema digestivo totalmente maduro para isso) querer comer carne, chocolate, mas que aprendeu que se fizer um biquinho e esboçar um choro vai receber o que quer dos pais. Isso é um grave problema, pois além de prejudicar saúde da criança, pode reforçar o sentimento de “onipotência” da mesma. As crianças precisam aprender o que elas podem e o que elas não podem, e que um não é não, mesmo que elas chorem a noite toda por conta disso, vão aprender que o choro não irá dar o que elas querem no dia seguinte, e neste outro dia não chorarão por isso.

Lide com suas próprias dificuldades e neuroses: Existem pais que simplesmente são incapazes de dizer não para os filhos, porque nunca ouviram ou não, ou porque ouviram vários em sua história de vida! Quem nunca ouviu de um pai que “vou dar para meu filho tudo aquilo que eu não tive”, e desta forma transfere para ele todas as suas angústias e irresoluções de quando era criança. E quem disse que seus filhos precisam ter tudo aquilo que você não teve? As necessidades e os desejos mudam conforme o tempo, variando de geração em geração, mas existe algumas necessidades que nunca saem de moda – o carinho, afeto, a educação. Por isso, muitos pais não conseguem dizer não para os filhos, porque simplesmente eles mesmos não conseguem lidar com seus “nãos” mal resolvidos da infância.

Aprenda que existe tempo certo para dar o que tem que ser dado: Sim, o problema as vezes não se trata em dar ou não dar determinada coisa, mas saber o tempo certo de fazê-lo! Às vezes você compra um presente para o seu filho, para ser dado no natal, mas que o mesmo com tamanha ansiedade, pressiona os pais para poder abri-lo antes da hora. O problema não está em dar a coisa, mas em dar no tempo certo. Esse tempo de espera é um dos principais “professores” para as crianças aprenderem a lidar com os seus desejos, pois entenderão um dia que não poderão ter o que querem, por mais justo ou bom que seja, em qualquer hora.

Aprenda a diferença entre ser um pai e um “amigo”: Essa foi uma das filosofias que adentrou ao senso comum do comportamento familiar, a de que os pais devem ser amigos dos seus filhos. Ora, isso em si não é uma mentira, pois a amizade é necessária entre pais, irmãos, casais ou o grupo social que seja, mas o problema se dá quando os pais abrem mão da figura parental para ficarem no nível da amizade barganhando comportamentos com os filhos. Será necessário que os pais afirmem a sua posição de pais, e que em muitos momentos estabeleçam regras. Esse processo de estabelecer regras, todavia, não é simplesmente dizer “porque é assim e pronto”, mas explicar para a criança que se ela fizer isso, acontece isso, então ela deve obedecer. Explicar as relações entre as causas e os prováveis efeitos, de maneira bem simples e acessíveis às crianças, ajuda-as a entender a importâncias das regras.

E por último, estabelecer uma relação de reforçamento positivo: Isso quer dizer que, as crianças devem ser elogiadas e recompensadas a cada ato positivo que fizerem, isso fará com tais atos tendam à multiplicação. Não basta somente estabelecer regras e limites, isso criaria os filhos sob uma espécie de militarismo familiar, o que também pode cessar com a criatividade e autonomia da criança, mas estabelecer uma boa relação de recompensas recheadas de afeto.

Estes são princípios gerais, que se observados podem ajudar bastante na criação dos filhos, e evitar que ocorra uma geração de pequenos “oportunistas, violentos e chantagistas”, que futuramente, poderão ser cidadãos bem menos responsáveis ou conscientes se estes pontos não forem observados.

Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil) com graduação sanduíche e formação em Terapia Sistêmico-Relacional de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O que o vestido preto com azul/amarelo com dourado pode ensinar sobre psicologia clínica?



Chata pra caramba! Foi assim que ficou essa polêmica para algumas pessoas no Facebook. Outros ainda estão descobrindo do que se trata. Alguns, como a minha avó, por exemplo, nem sabem ainda do ocorrido e pouco importa isso para ela. Mas o fato é que uma foto de um vestido, portadora de uma das mais perfeitas ilusões de ótica já vistas na rede nos últimos tempos, despertou a curiosidade de muita gente.

Muitos psiquiatras, neurologistas e neuropsicólogos já falaram sobre o caso, falando sobre o que ocorre com o fenômeno: O fato é que os olhos não são os responsáveis por decifrar nenhum tipo de informação, eles são apenas responsáveis por captá-las e enviá-las para a área Occipital do cérebro, que é a responsável pela organização e interpretação dos estímulos da visão. Mas não vamos por este lado... nosso foco é a psicologia clínica!

Outra coisa interessante desta imagem é que ela foi capaz de mostrar para as pessoas que, coisas tidas como tão exatas ou certeiras, são tão relativas como as julgadas “subjetivas”. E não é de hoje que o tema das cores pode ser relativizado: Daltônicos por exemplo possuem uma percepção de cores diferentes da maioria das pessoas por uma simples alteração biológica.

Ora, vamos traçar alguns paralelos: Nossas sensações e percepções possuem intrínseca relação com o nosso biológico, mas só existem quando este aparato está em contato com a estimulação oferecida pelo meio ambiente, e o fato é que o mesmo estímulo (como a foto de um vestido) pode gerar diferentes tipos de reações. Tal fato também se dá com as emoções: Possuem um substrato endocrinológico, são formuladas no sistema límbico cerebral, são sentidas em determinados momentos em partes do corpo, mas ocorrem por via de estimulação ambiental.

Esse paralelo é importante para que cheguemos ao ponto central deste texto: Assim como pessoas diferentes vendo o mesmo vestido tiveram percepções totalmente diferentes, assim pessoas que passam pelas mesmas situações podem ter emoções totalmente diferentes. Este conceito é chave na psicologia clínica: Ninguém reage ao mesmo estímulo da mesma maneira. Ora, isso que parece ser bastante óbvio para um estudante de psicologia, deveras vezes não o é em uma situação de terapia de casais ou famílias, por exemplo, ou mesmo em uma situação onde um paciente com o narcisismo (aqui faço o empréstimo da categoria psicanalítica) não bem resolvido entende que as pessoas devem sentir-se iguais a ela.

A questão é que, o vestido chato do Facebook é mais interessante do que parece, porque exemplifica um princípio básico da psicologia clínica, tornando-o mais acessível inclusive como forma de alegoria para os pacientes que ainda não chegaram a compreensão de que cada sentimento, pensamento ou percepção são qualitativamente únicos no universo.

E a psicologia, assim como a vida, sempre nos surpreende com estas coisas bobas, ao ponto de fazer com que um simples vestido, possa servir de exemplo para a compreensão de um princípio elementar da vida social que pode ser aplicado na clínica, para qualquer leigo ver, ou perceber. Voi-là! Mais uma ferramenta que pode ser aplicada no consultório: Amanhã mesmo, se tiver um casal para atender, com problemas para entender que cada um percebe/sente os mesmos eventos de maneira diferente, talvez compense imprimir tal foto para fazê-los pensar sobre o tema. Não é fantástica a nossa psicologia?!

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Foto: via G1.com

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com formação sanduíche e estágio em terapia sistêmico relacional de casais e famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A importância de aprender a dizer “não” para os filhos



Este talvez seja um dos temas mais comentados nas mídias por psicólogos, relacionado ao desenvolvimento infantil. Isso porque parece que há uma grande dificuldade dos pais dessa geração na árdua tarefa de impor limites aos seus filhos.

O senso comum, por sua vez, é cheio de receitas mágicas e de achismos sustentados por crendices populares reforçadas por séculos de uma cultura educacional pobremente estimulada, o que leva ao estabelecimento de diversos mitos e inverdades sobre a criação dos filhos.

O problema é que os pais parecem cada dia menos preparados para lidar com tarefas que, há algumas gerações eram muito simples. Vários podem ser os fatores para isso, como a reorientação do sentido e do significado da pater/maternidade para as famílias contemporâneas, sendo que alguns autores já discutem tais propostas teórica e historicamente (Mansur, 2003; Moura & Araújo, 2004).

Para muitos psicólogos do desenvolvimento humano, a questão da imposição de limites psicológicos para a ação da criança era um assunto de extrema importância, pois estava diretamente ligada ao aspecto moral civilizatório.

O pai da psicanálise e, sem dúvida, um dos maiores teóricos da psicologia, Freud, discutiu em seu texto “O Ego e o Id” (Freud, 1923/2009) o estabelecimento de uma estrutura psíquica chama “Superego” que era a responsável pela internalização das regras sociais, ensinadas pela família e posteriormente, pela sociedade como um todo. Todavia, esta estrutura só se estabelecia a partir do momento em que fosse resolvido o que o autor chamou de Complexo de Castração (embora o complexo de castração seja algo que se atualize constantemente, há uma fase na vida, onde ele se resolve em conjunto com o complexo de Édipo, fundando o superego) (Fenichel, 1981).

O que o Complexo de Castração evidencia é a necessidade da imposição dos limites através dos “nãos” colocados como barreiras pelos pais entre a criança e o objeto de seu desejo. Oras, mas a grande questão é que não se trata de um processo tão simples assim: Geralmente os pais possuem muita dificuldade de dizer não para os seus filhos pela incapacidade que os mesmos possuem de lidar com suas próprias frustrações infantis, projetando sobre os mesmos as suas angústias não tratadas. Com isso, chegou-se ao cúmulo de, no senso comum, pregar-se que o “não” era prejudicial à educação dos filhos.

Oras, o “não” não é prejudicial como é necessário para o desenvolvimento de uma criança psicologicamente saudável! Uma criança precisa entender, desde cedo que, o mundo não é a extensão de seu corpo, e que o mesmo não se move conforme a sua vontade, e isso só é feito através destes “cortes psicológicos” que são estabelecidos através do “não”. Esta dinâmica de estabelecer sucessivos “nãos” é muito importante para que a criança aprenda desde cedo a lidar com outro fenômeno igualmente natural e comum à todos os mortais, o narcisismo (mas isso é outra história).

O ponto é que, o saudável estabelecimento de uma relação que compreende os limites através de “nãos” é necessário para criação de uma pessoa cada vez mais consciente dos seus limites, dos do próximo e, assim ter um futuro adulto com cada vez maior noção de civilidade.

Referências

Fenichel, O. (1981). A teoria psicanalítica das neuroses. São Paulo: Atheneu.

Freud, S. S. (2009). O Ego e o Id. Em, Edição Standart das Obras Completas de Sigmund Freud, Tomo XIX. São Paulo: Imago.

Mansur, L. H. B. (2003). Sem filhos: a mulher singular no plural. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Moura, S. M. S. R., & Araújo, M. F. (2004). A maternidade na história e a história dos cuidados maternos. Psicologia, ciência e profissão, 24(1), 44-55.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche e estágio em terapia sistêmico-relacional de casais e famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O adultério faz tanto mal para o traidor quanto para o traído



A história da humanidade está repleta de passagens onde o adultério foi cena principal: Casos famosos de traição amorosa são vários, desde o de Dalila, traindo Sansão na Palestina no século XI a. C., aos contemporâneos, como os casos do príncipe Charles da Inglaterra, que traiu a princesa Diana ou do presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, com uma de suas secretárias, Mônica Lewinsky. Apesar de ser um fenômeno relativamente comum na história da humanidade, não se tem notícias de uma civilização que o considerasse normal.

Mesmo na antiguidade, com alguns povos mantendo tradições de concubinato ou poligamia/poliandria, relações sexuais fora de contratos sociais eram consideradas nocivas e passíveis de punição: Sociedades semitas puniam, e ainda hoje, em alguns países orientais, pune-se o adultério com apedrejamento até a morte (entre outras modalidades). Mas porque isso acontecia ia muito além do direito teocrático, ligado à moral religiosa - Em uma época em que o machismo era status quo, uma regra quase universal, as mulheres sofriam maior dano a qualquer violação da regra da fidelidade matrimonial: As mulheres eram consideradas propriedades dos maridos, não podiam trabalhar e possuíam a vida social muito privada, e o casamento à época era um verdadeiro contrato social, onde além do pagamento do dote por parte do noivo ou da noiva, a mulher era entregue totalmente à mercê do sustento do homem. Qualquer caso de “abandono” da mulher por parte do homem poderia ser uma sentença de morte para a esposa. Daí a necessidade de se terem bem reguladas as relações afetivo/sexuais entre as pessoas.

Mas não é o objetivo deste texto entrar no mérito histórico ou moral do fenômeno do adultério, muito menos investigar as possíveis causas para o mesmo, mas realizar uma pequena reflexão sobre as consequências psicológicas de tal ato.

Existe uma frase de Vigotski, escrita em seu texto “Psicologia Humana Concreta” que ilustra bem o que quero dizer:

“Nos tornamos nós mesmos através dos outros” Vigotski (1929/1986, p. 67)

O que Vigotski queria dizer com este fragmento é que nos constituímos enquanto indivíduos com base na nossa relação com os outros, e que as ações que tomamos ou que os outros tomam, repercutem mutuamente uns nos outros. O que é notável na psicologia vigotskiana é o fato de que a dialética é um de seus pilares e, seguindo esta ideia, podemos dizer que, da mesma forma, nos relacionamos com o outro com base em nós mesmos: Nossos medos, angústias, limitações, alegrias, todas são refletidas nos outros. É o que a psicanálise nomeou de mecanismo de projeção (Fenichel, 1981): Nós atribuímos aos outros às nossas próprias “questões psicológicas”, sejam pensamentos, emoções ou desejos; e é neste ponto que devemos entrar.

Já é sabido que a pessoa traída geralmente é acometida de pensamentos destrutivos, depressivos, depreciativos a respeito de si ou do parceiro, sente raiva, ódio, angústia e muitos outros sentimentos considerados negativos, sendo um processo de “luto sentimental” natural após ver-se na situação de ser traído. Todavia, o que se passa com os sentimentos de um traidor?

Muitos poderiam pensar que esta pessoa se encontra em um estado mais cômodo ou confortável, pelo fato de não ter sido o passivo da traição, e é neste ponto que eu devo discordar. Em primeiro lugar, devemos desfazer o pensamento hollywoodiano da vítima e do algoz da traição, afinal de contas, as pessoas só o são se colocarem-se nesta posição, pois há muitas maneiras de ser sujeito de suas próprias emoções/pensamentos neste processo. Não que isso queira dizer que, a traição seja um ato aceitável por parte de qualquer um dos lados, pois rompe-se um contrato psicológico, um contrato emocional, que foi acordado de bom grado entre duas partes, e isso em si não é uma coisa simples ou corriqueira. Pois bem, a segunda coisa que deve-se desmistificar é que a pessoa que trai não sente os efeitos da traição, ou que não é passível dela: A traição não é feita contra uma pessoa, mas contra o relacionamento das duas pessoas. E quem quebra este vínculo, com certeza irá sentir a dor das perdas do fato.

Mas o que de fato o traidor perde: Além do vínculo de confiança com o parceiro, ele perde o vínculo de confiança consigo mesmo. Levando em consideração o mesmo mecanismo da projeção, basicamente, pode ocorrer o seguinte “pensamento” (não encontrei outro termo para essa dinâmica) inconsciente: “Se eu que me conheço fui capaz de trair minha/meu esposa/esposo, como posso confiar nela/nele?!”, e assim cria-se uma relação de desconfiança. O passo natural para isso é transferir a sua desconfiança para todos os relacionamentos possíveis, até quebrar tal ciclo, com muita terapia.

Neste sentido, um traidor pode (e note que sempre uso as afirmativas em tom de possibilidade, pois cada caso é um caso) ser uma pessoa que irá ter a desconfiança como um dos nortes das relações de sua vida, o que pode levar a sua vida à um verdadeiro inferno emocional, e daí ao surgimento desde os ciúmes patológicos às formas mais variadas de neuroses.

O que devemos refletir com este texto é o seguinte: Contratos emocionais são coisas muito importantes, e só devem ser quebrados se isso for de mútuo conhecimento (note que nem digo consentimento, pois nenhum ser humano é saudável sendo obrigado a viver sobre qualquer jugo), sendo que, se uma pessoa quiser ser feliz, ou ter relacionamentos estáveis, deve aprender a respeitar os contratos emocionais a que se obriga (seja namoro, casamento, etc), como sinal de própria maturidade emocional, ou de ser sujeito de seus próprios desejos.

Referência

Fenichel, O. (1981). Teoria psicanalítica das neuroses. São Paulo: Atheneu.


Vigotski, L. S. (1986). Concrete Human Psychology. Soviet Psychology, 27(2), 53-77.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche e estágio em terapia sistêmico-relacional de casais e famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Quer ser feliz no amor? Então declare guerra à Hollywood!



Ah, o amor, esse sentimento nobre que é descrito há centenas de anos pelos poetas, filósofos, pensadores, e por fim, psicólogos... E é por isso que eu estou aqui, talvez para fazer o papel de advogado do diabo e desmascarar algumas questões ocultas a respeito de tão falado sentimento.

Em primeiro lugar, tenho que confessar que não estou tão certo que o amor seja um sentimento. Como assim, Sr. Psicólogo? É isso mesmo! Acredito que o amor, seja ele o que for, é muito mais complexo do que um simples sentimento. Aliás, se ele fosse fácil de descrever, eu mesmo escreveria um tratado de algumas dezenas de páginas e ficaria rico vendendo a receita para a felicidade através dele!

Mas vou tentar expressar alguma coisa do que eu entendo sobre o amor. Para mim a mais bela e precisa definição do amor advém de um verso da Bíblia:

“E sobretudo, revistam-se do amor, que é o vínculo da perfeição” Colossensses 3:14

Este verso foi escrito por Paulo de Tarso no século primeiro para uma comunidade de cristãos que viviam na cidade de Colossos na Grécia Antiga, e de uma forma bem singela, traduz algo a respeito do amor. Acredito que Paulo chamou o amor de “vínculo da perfeição” pelo simples fato de ser a expressão maior da complexidade das relações humanas. Explico, o amor não é uma simples emoção ou sentimento, mas um conjunto de emoções e sentimentos que é revestido de vontade humana, que se concretiza em uma decisão. Complicado? Explico melhor: O amor não é um simples sentimento de “bem querer”, e isso é visível no fato de que muitas vezes, mesmo amando uma pessoa, podemos sentir uma raiva muito grande dela, nos cansar, termos dúvidas, sentimentos ruins e bons, alternados e ao mesmo tempo... é um turbilhão de coisas que nos atropela e volta. Soma-se isso de uma “vontade”, um querer, um desejo, fazendo com que, na síntese dos sentimentos e dessa vontade, haja uma escolha da pessoa por amar. Por isso, eu definiria o amor como um contínuo de sentimentos, vontade e decisão. É perfeito porque é completo, expressa a nossa orientação de “bem querer” mesmo no “mal querer”.

Contraditório? Sim! E talvez a pessoa que melhor tenha expressado esta relação contraditória tenha sido um poeta português dos século XVI, Luis Vaz de Camões, ao escrever o famoso poema, do qual adjunto uma parte:

“Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer”

Bom, o amor parece ser isso, uma grande relação que se expressa em contradições e que tem como fim último a felicidade em si que se contenta na felicidade alheia. E aqui eu tenho que diferenciar uma coisa, e é onde eu digo que há que se travar uma guerra contra Hollywood: O amor não possui formas ou receitas, ele acontece no caminho. O amor é um método peripatético* de vida, ou seja, ele acontece enquanto caminhamos e vivemos.

O problema disso é que, em uma sociedade onde o amor foi industrializado pelos romances hollywoodianos, onde a estética é endeusada (pois o amor é lindo nos filmes), há uma grande crise de angústia ao perceber que, o amor, é mais uma ética do que uma estética! Antes de ser belo, ele tem que ser bom, e o bom não é necessariamente ligado ao prazer, ao gozo! O bom está ligado ao essencial, ao que é necessário para que se viva com plenitude. Por isso que há que se declarar guerra contra Hollywood: Não devemos comprar um ideal de amor vendido por cenas cinematográficas realizadas sob às estrelas, ou com histórias comoventes – o amor é uma decisão de se viver mesmo quando não há pianos tocando sob a luz de velas.

O protesto que devemos fazer é este: Não devemos comprar um ideal de amor fabricado por uma empresa! Não devemos submeter nosso amor à Deus, ao próximo, ao cônjuge, à família, a nós mesmos, pelos ideias feitos por Hollywood. Afinal de contas, a inconformidade gerada pela desilusão criada pela dissonância fantasia/realidade é imensa, e causa angústias de vida no indivíduo.

Não escrevo este texto como um “pessimista” do amor, mas escrevo contra a inversão do valor deste: Antes de tudo, o amor é uma orientação de vida, é uma ética, para depois disso se tornar uma estética. E esta estética (beleza) é feita no caminho. Por isso, é necessário caminhar, viver sem cultivar fantasias disfarçadas de expectativas, pois esperando um grande final, perde-se toda a beleza do caminho.

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*Peripatetismo: É um método de ensino desenvolvido por filósofos gregos clássicos, inicialmente por Aristóteles, e posteriormente apropriado por Jesus de Nazaré, cuja essência era “ensinar caminhando”. Ou seja, os filósofos se reunião em grupos ao ar livre, e saíam pela cidade passeando e filosofando, usando os elementos do caminho para refletir, ensinar e aprender.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás, com graduação sanduíche e estágio Terapia Sistêmico Relacional de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Reflexões sobre as escolhas na resolução de problemas no relacionamento a dois



Talvez esta seja uma das coisas que mais fazem as pessoas procurarem os psicólogos ao redor do planeta terra: Problemas sentimentais. E eles podem ser de várias ordens, relacionados à própria pessoa ou aos outros, podem ser de várias intensidades, modos ou enfim... Apesar de ser muito amplo tal espectro, gostaria de centrar a nossa reflexão a respeito de uma classe: A relação a dois.

Desde que nos entendemos por gente, fomos ensinados pela sociedade, pelas tradições ou pelos livros sagrados das religiões que o “ser humano não foi feito para viver só”, e com base nisto, e outras “cositas más” a sociedade foi se estruturando diariamente em relações monogâmicas e estabelecendo níveis de relacionamentos e ritos de passagens: Namoro, Noivado, Casamento, etc., que variam em relação a forma e às vezes conteúdo, de cultura para cultura, mas que possuem relativa base em comum.

Se formos olhar simplesmente pelo viés evolutivo, viver com outra pessoa é algo que proporciona a “manutenção da espécie” ou a maior possibilidade de ter sucesso na “seleção natural”... Todavia, o ser humano é um ser dotado de intencionalidade e subjetividade, e de uma infraestrutura que o permitiu se converter em um ser social que permite construir sentidos objetivos e subjetivos de existência: A partir disso, não se pode mais enxergar a vida a dois somente como uma mera estratégia de sobrevivência, pois na medida em que o ser humano cria novos sentidos à esta experiência, e a tecnologia o ajuda a superar as intempéries da guerra biológica pela preservação da espécie.

Pois bem, o objetivo deste texto não é trabalhar sobre a origem da monogamia, do amor, ou dos ritos de acasalamento socialmente constituídos e travestidos por rituais e tradições, mas de fazer uma reflexão sobre as dinâmicas relacionais existentes na vida a dois.

Vamos partir do pressuposto de que o objetivo de um relacionamento entre pares consentidos é a felicidade, e esta é alcançada através de uma coisa chamada amor (seja lá o que isto seja, pois esta é uma das coisas mais difíceis de definir ou de descrever em meu ponto de vida [e de muita gente]...). Sigamos também a ideia de que uma relação não nasce pronta, mas é construída na medida em que as individualidades dos pares se constituírem em uma unidade afetivo-simbólica que não suprima as vontades dos sujeitos que a compõe. Outro pressuposto que gostaria de tomar é de que a relação a dois é baseada em uma série de “contratos psicológicos” estabelecidos de maneira consciente e inconsciente, e que os mesmos são estabelecidos por consenso e modificados de igual forma. Outra coisa que devemos assumir como premissa neste texto, para compreender melhor o objetivo do mesmo é: Uma relação é dinâmica e a sua manutenção é de responsabilidade de ambos os integrantes.

Então o que quero dizer como final disso tudo?! Ora, temos duas possibilidades para vivermos nosso relacionamento, e falo isto com muito temor, pois sempre fui um dos combatentes de dualidades na psicologia, mas acredito que aqui é onde se pode traçar o limiar entre uma dualidade e uma “dicotomia” - Somos seres que resultaram de incontáveis anos de evolução social, e foi esta evolução social que, de alguma maneira nos colocou diante de uma escolha sobre duas posições morais: Ou vivemos nossas relações de maneira altruísta, ou de maneira egoísta! Isso não quer dizer que, tenhamos que escolher conscientemente entre uma ou outra, ou que se o fizéssemos, viveríamos infinitamente em um dos polos e repeliríamos o outro. Não! Afinal de contas, é impossível ser 100% altruísta ou egoísta em um relacionamento (e aqui eu poderia recorrer a incontáveis filosofias milenares como a do TAO, na tese do Ying e Yang, em que um pouco de bem sempre está contido no mal e vice-versa; ou na filosofia do Cristianismo, onde o mal emana de criaturas que são feitas à imagem e semelhança do criador)...

Enfim, o que quero levantar com este texto é que, relacionamentos são feitos à nossa imagem e semelhança, contraditórios e surpreendentes, e que temos a escolha de vivermos baseando nossos relacionamentos em amor ou em simples jogos de poder, e que tal escolha não é tão simples assim. O que temos que fazer é pensar sobre as dinâmicas afetivas em que nos colocamos: Estamos respeitando a individualidade do outro? Estamos vivendo de maneira a saber mediar de maneira saudável a relação entre o “eu”, o “você”, e o “nós”?

Ora, nossos relacionamentos são construídos pelas decisões que tomamos, pela maneira que agimos e pensamos, e não simplesmente pelo que sentimos. Para compreender essa dinâmica de relacionamentos a dois onde vivemos, não há um segredo à priori, como uma receita para todos, mas a uma das melhores maneiras é, sem dúvida alguma, aprender a relacionar-se consigo mesmo, pois não existe amor ao próximo que resista à falta de amor próprio. E para finalizar, devemos parar de buscar respostas mágicas para nossos problemas emocionais: Ou encaramos o que temos no presente momento de forma madura, ou iremos viver na eterna terra do “se”, que nunca respondeu ou aliviou inquietação de ninguém. Acredito ainda, piamente, que devemos parar de buscar respostas prontas para tudo na vida, e encaramos nossos problemas como construídos por nós mesmos (lidando com eles), ou viveremos em uma eterna transferência de nossas responsabilidades para o mundo.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil) com graduação sanduíche e estágio em terapia sistêmico-relacional de casais e famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES e presidente da Rede Goiana de Psicologia.