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sábado, 25 de abril de 2015

Porque algumas crianças choram tanto?



Descartando as questões de fome e saúde, as crianças choram tanto pelo simples fato de que APRENDERAM A CHORAR COMO FORMA DE SE COMUNICAR! Em verdade, o choro é um componente inato do comportamento humano (ou seja, já nasce com a criança), mas ele passa a adquirir contornos sociais na medida em que a criança aprende que ele mobiliza os pais (ou responsáveis) para a satisfação de suas necessidades e desejos; ou seja, a criança entende que se ela chorar mobilizará as pessoas ao seu redor para a satisfação de suas necessidades.

É uma questão de reforçamento: se a criança chorar, e por conta de seu choro tiver as suas vontades satisfeitas, ela irá chorar sempre, de modo que o comportamento de chorar será fortalecido.

Os pais devem ter cuidado de verificar sempre a saúde da criança, se a mesma está alimentada, se está higienizada ou se não existe nenhum outro fator externo que esteja causando incômodo, esses também são motivos para os temíveis choros das crianças. Todavia os pais também não devem descartar a possibilidade de as mesmas estarem chorando como simples maneira de mobilizá-los para a satisfação de suas necessidades.

Uma coisa importante de lembrar é que as crianças ainda não aprenderam a clara estipulação de limites, então, muitas de suas vontades serão nada menos que a mais pura necessidade de manipular o mundo ao seu redor, pelo simples fato de não terem aprendido que elas não são o centro do universo.

Esta é uma etapa difícil na formação dos filhos, mas com muita paciência e calma ela pode ser superada, e os pais devem ficar atentos para perceberem se não estão sendo controlados pelas vontades irracionais dos filhos, lembrando que não é saudável atender a todas as vontades dos filhos em toda e qualquer hora. A criança deve aprender desde cedo de que existem limites para as suas vontades e que existem outras vontades (de outras pessoas) no mundo, e que estas não estão subordinadas às suas.

Neste sentido, o que os pais devem aprender é que, em um determinado momento da vida de seu filho, principalmente onde ele já começa a esboçar os primeiros balbucios, há maneiras de ensinar a criança de que existem outras formas de comunicação que não seja somente o choro. Esta pode ser a diferença entre criar um filho compreensivo e um filho intolerante.

Neste sentido, há muito mais da habilidade dos pais em serem educadore, desde o primeiro ano de vida, do que os mesmos podem imaginar: não devemos desprezar a capacidade das crianças de serem sujeitos que aprendem, ainda que na mais tenra idade.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil) com graduação sanduíche e formação em Terapia Sistêmico-Relacional de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Como não criar um filho “chantagista"



Uma das coisas que tenho notado na atualidade é a constante dificuldade dos novos pais em lidar com a criação dos filhos: Temos criado uma era do “filhocentrismo” onde as crianças dominam o lar, ditam as regras de conduta e condicionam severamente o comportamento dos pais. Quem não conhece o famoso discurso “Filho é uma bênção de Deus” ou “Filho é a melhor coisa do mundo”? E quem também não conhece “não estou dando conta do meu filho” ou meu filho “é muito inquieto e agitado”... Pois bem!

Tenho notado que existe uma incrível relação entre diversos fenômenos encontrados na infância tardia e na adolescência, que são socialmente deletérios, que poderiam ser facilmente evitados se os pais tivessem um pouco mais de habilidades no processo de educação dos filhos: E preste bastante atenção ao fato de que educação não é simplesmente aquele ato formal de alfabetizar os filhos, mas sim a prática cotidiana de transmitir-lhes cultura para viver em sociedade. Neste sentido, a educação começa a partir do nascimento, sendo primeiramente de responsabilidade dos pais.

Quando falo sobre filho “Chantagista” (note que uso o termo entre parênteses, para evidenciar que isso é um termo do senso comum), me refiro às crianças que tem o incrível poder de manipulação dos pais: Fazem o que querem, na hora que querem, e não podem ser contrariados, pois se o forem, logo aprontam uma maneira de constranger socialmente ou psicologicamente os pais de alguma maneira (quem não conhece as “birras” de supermercado, ou coisas do tipo), obrigando os pais a cederem aos seus caprichos. Mas porque isso ocorre?

Simplesmente pelo fato de que foram ensinados! Você, pai desavisado, poderia se questionar: “Mas meu filho nem fala, nem anda, e já é desse jeito, como é possível?!”. Simplesmente porque nem toda aprendizagem é necessariamente um processo consciente, mas pode ser um processo de condicionamento. O que isso quer dizer? Quer dizer que, mesmo sem entender o que está fazendo, a criança pode desenvolver uma série de comportamentos porque foi “impelida” a fazer isso! E isso mostra que a educação começa extremamente cedo.

E cria-se com isso um ciclo cruel: Os pais que não aprenderam a educar os filhos, imprimindo neles seus vícios e transferindo as suas neuroses, acabam por puni-los futuramente por coisas que eles mesmos geraram. E assim, cria-se uma indústria da revolta, da violência e da delinquência.

Para entender como se livrar deste problema, longe de tentar fornecer uma receita universal para todos, pois em se tratando de ciências humanas (onde a psicologia se insere) cabe muito bem a máxima de que “cada caso é um caso”, passemos a entender que existem coisas simples que os pais podem fazer, que ajudam a ter filhos cada dia mais educados e menos tendentes ao ciclo perverso da violência que citamos anteriormente:

Aprenda que seu filho vai chorar, mas que nem sempre isso é ruim: Sim, o choro não é sempre uma maneira de comunicar que algo está errado, mas é a primeira forma que os bebês aprendem para interagir com o mundo! Por isso haverá sim situações em que seus bebês vão chorar porque estão com fome, porque estão com dor, porque estão com medo, ou porque simplesmente querem que você esteja perto (e isso não é necessariamente uma “prova que a criança te ama”, mas porque ainda não aprendeu a ficar sozinha depois de ter nascido). Os primeiros meses de vida são muito importantes para que a criança entenda que, estando fora da barriga da mãe, existe outra dinâmica, e que ela deverá aprender que não terá a sua mãe 24 horas por dia, vigilante, ao lado, oferecendo comida, calor, colo, etc. Há momentos em que é importante que a criança fique sozinha em seu berço. Ela irá chorar por vários motivos e é importante que se verifique se está tudo bem, mas estando com a saúde perfeita, alimentada, bem cuidada, não é todo choro que signifique que a criança necessite de alguma coisa com urgência. A criança aprende a esperar, a ter limites, e a entender que o mundo não gira ao redor dos seus comandos ainda muito cedo, por isso, é necessário entender esta dinâmica, para não ter um filho que toda vez que chora terá seus pais fazendo suas vontades, isso os fará chorar mais e mais e mais, sempre.

Aprenda que você não deve dar tudo aquilo que seu filho quer: Isso mesmo, ele precisa a entender a palavra “Não”! E isso começa desde cedo – crianças são curiosas e querem tocar, experimentar e provar tudo. Um exemplo disso é aquela criança com 8 meses de idade, que não pode comer qualquer coisa (pois não tem o sistema digestivo totalmente maduro para isso) querer comer carne, chocolate, mas que aprendeu que se fizer um biquinho e esboçar um choro vai receber o que quer dos pais. Isso é um grave problema, pois além de prejudicar saúde da criança, pode reforçar o sentimento de “onipotência” da mesma. As crianças precisam aprender o que elas podem e o que elas não podem, e que um não é não, mesmo que elas chorem a noite toda por conta disso, vão aprender que o choro não irá dar o que elas querem no dia seguinte, e neste outro dia não chorarão por isso.

Lide com suas próprias dificuldades e neuroses: Existem pais que simplesmente são incapazes de dizer não para os filhos, porque nunca ouviram ou não, ou porque ouviram vários em sua história de vida! Quem nunca ouviu de um pai que “vou dar para meu filho tudo aquilo que eu não tive”, e desta forma transfere para ele todas as suas angústias e irresoluções de quando era criança. E quem disse que seus filhos precisam ter tudo aquilo que você não teve? As necessidades e os desejos mudam conforme o tempo, variando de geração em geração, mas existe algumas necessidades que nunca saem de moda – o carinho, afeto, a educação. Por isso, muitos pais não conseguem dizer não para os filhos, porque simplesmente eles mesmos não conseguem lidar com seus “nãos” mal resolvidos da infância.

Aprenda que existe tempo certo para dar o que tem que ser dado: Sim, o problema as vezes não se trata em dar ou não dar determinada coisa, mas saber o tempo certo de fazê-lo! Às vezes você compra um presente para o seu filho, para ser dado no natal, mas que o mesmo com tamanha ansiedade, pressiona os pais para poder abri-lo antes da hora. O problema não está em dar a coisa, mas em dar no tempo certo. Esse tempo de espera é um dos principais “professores” para as crianças aprenderem a lidar com os seus desejos, pois entenderão um dia que não poderão ter o que querem, por mais justo ou bom que seja, em qualquer hora.

Aprenda a diferença entre ser um pai e um “amigo”: Essa foi uma das filosofias que adentrou ao senso comum do comportamento familiar, a de que os pais devem ser amigos dos seus filhos. Ora, isso em si não é uma mentira, pois a amizade é necessária entre pais, irmãos, casais ou o grupo social que seja, mas o problema se dá quando os pais abrem mão da figura parental para ficarem no nível da amizade barganhando comportamentos com os filhos. Será necessário que os pais afirmem a sua posição de pais, e que em muitos momentos estabeleçam regras. Esse processo de estabelecer regras, todavia, não é simplesmente dizer “porque é assim e pronto”, mas explicar para a criança que se ela fizer isso, acontece isso, então ela deve obedecer. Explicar as relações entre as causas e os prováveis efeitos, de maneira bem simples e acessíveis às crianças, ajuda-as a entender a importâncias das regras.

E por último, estabelecer uma relação de reforçamento positivo: Isso quer dizer que, as crianças devem ser elogiadas e recompensadas a cada ato positivo que fizerem, isso fará com tais atos tendam à multiplicação. Não basta somente estabelecer regras e limites, isso criaria os filhos sob uma espécie de militarismo familiar, o que também pode cessar com a criatividade e autonomia da criança, mas estabelecer uma boa relação de recompensas recheadas de afeto.

Estes são princípios gerais, que se observados podem ajudar bastante na criação dos filhos, e evitar que ocorra uma geração de pequenos “oportunistas, violentos e chantagistas”, que futuramente, poderão ser cidadãos bem menos responsáveis ou conscientes se estes pontos não forem observados.

Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil) com graduação sanduíche e formação em Terapia Sistêmico-Relacional de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O mito da pureza infantil



Muitas das certezas e das categorias psicológicas que temos hoje não estava presentes na sociedade 100 anos atrás; e se formos além, outras dezenas de centenas de anos atrás, nos espantaremos ainda mais com a ausência de coisas que para nós são tão naturais. Um dos mitos mais interessantes que possuímos, no senso comum, é o do amor materno: Badinter (1985) foi uma das teóricas que desenvolveu a ideia de que o amor materno nada mais era do que um mito insustentável, pois não se tratava de um sentimento inato, mas de um sentimento que seria evolutiva e socialmente construído. E com base nesta ideia central, vários teóricos discorreram sobre o tema, desde a psicanálise à psicologia evolucionista.

O exemplo acima citado é somente um dos mais gritantes e que mais assusta os leigos ao primeiro ponto de vista, mas existem diversos outros sendo que um deles, se tornou objeto deste texto: A infância.

A infância, como hoje a conhecemos, não existia antes do século XVI, e só se tornou possível graças a duas questões: A criação da Escola e da Família Nuclear Moderna (Ferreira, 2006). Anteriormente a isto, se fizermos uma reconstrução histórica, veremos que nas sociedades anteriores, não havia uma representação social do que seria uma infância: as crianças que sobreviviam à fome, peste ou a guerra, eram logo enviadas para “missões” para aprenderem a serem guerreiras, caçadoras, coletoras, agricultoras. E assim foi desde as sociedades mais tribais, até a Idade Média.

Em grande parte das comunidades antigas, as “crianças” eram enviadas para serem criadas pelas “Amas de Leite”, talvez como uma das maneiras de evitar com que as mães da época sofressem com as penas emocionais da alta taxa de mortalidade infantil. As que sobrevivessem até os 4 ou 5 anos, eram enviadas de volta para os lares para passarem por um período de treinamento, que se resumiam às habilidades sociais desejadas às épocas.

Vários são os pontos que reforçam esta tese, segundo Ferreira (2006), como por exemplo o fato de que não havia separação dos espaços da casa para crianças e adultos, o que fazia com que os filhos estivessem totalmente expostos a vida sexual dos pais, por exemplo; Também não havia nenhum tipo de literatura específica voltada para as crianças, sendo comuns com que aprendessem com as mitologias dos adultos, ou as tragédias, bem como clássicos filosóficos como os diálogos platônicos; Outro ponto é que não havia uma pedagogia para as crianças, sendo que as poucas escolas que existiam na época não separavam os alunos por idades; Nas guerras era comum (e ainda é em algumas sociedades atuais) que crianças empunhassem armas como soldados.

Mas o quadro comela a reverter-se a partir do século XVI, com a possibilidade de apego fornecida pela diminuição da mortalidade infantil, assim como peça ética católica de um grupo de padres que apregoavam uma suposta inocência nos primeiros anos de vida: aqui se estabelece a pureza como essência moral, que seria algo original nas crianças. E assim funda-se uma nova ideia psicológica para a periodização do desenvolvimento humano.

Outro exemplo moderno que podemos citar aqui é o da existência de “psicopatas” infanto-juvenis, que desafiam a lógica da moral da pureza católica instaurada na psicologia. Mesmo que se trate de casos aparentemente raros ou isolados, a possibilidade da existência destes mostra-se como um desafio à ideia da pureza original das crianças.

Ou seja, a categoria “infância” como a conhecemos hoje, possui muito mais elementos do que o senso comum poderia imaginar, e a nós como psicólogos cabe compreender estes movimentos de constituição de categorias históricas das quais tratamos como tão certas, mas que são mais um exemplo da capacidade humana de organizar-se para a vida social.


Referências

Badinter, E. (1985). Um amor conquistado: o mito do amor materno (W. Dutra, Trad.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Ferreira, A. A. L. (2006). O múltiplo surgimento da psicologia. Em, Ferreira, A. A. L., & Jacó-Vilelra, A. M. (Orgs). História da psicologia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: Editora Nau, pp. 13-46.

Imagem: Extraída do Google Imagens.


Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil) com graduação sanduíche e formação em Terapia Sistêmico-Relacional de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

quarta-feira, 11 de março de 2015

A adultização da infância: Um problema para a periodização clássica do desenvolvimento humano



Esta semana fiquei horrorizado ao ver um vídeo no Facebook onde três crianças, que não deveriam ter mais do que 10 anos cada, faziam uma “apresentação” de funk carioca: O problema neste sentido não está atrelado ao gosto musical pela música apresentada (que era, em meu ponto de vista, um estupro musical), mas na performance apresentada – o menino cantava (notava-se que ainda não sabia nem pronunciar algumas palavras direito), sem camisa, enquanto duas meninas, seminuas (esboçando já o desenvolvimento precoce das mamas, cobertas por tops minúsculos) esfregavam-se no garoto, literalmente, e faziam movimentos típicos da dança sexualizada dos bailes. Não postarei o vídeo por notáveis razões éticas.

Longe de ser puritano, coisa que realmente não sou, e de tentar tolher qualquer tipo de expressão da sexualidade infantil (para os leitores desavisados: digo isto no sentido psicanalítico, não no sentido do que o senso comum pode pensar), fiquei horrorizado com o que vi – crianças que ainda nem sabiam falar direito, expressando uma sexualidade recheada de erotismo adulto. Não vou colocar ou tentar analisar o problema moral disto, por entender que cada pessoa interpreta a moral de sua maneira ou por suas crenças, mas colocarei nas linhas seguintes o problema psicológico e social do fato.

Em primeiro lugar, vários teóricos da psicologia tentaram periodizar o desenvolvimento humano, na tentativa de compreender o que seria o “normal esperado” para cada fase, de modo a poder acompanhar as questões decorrentes da experiência de cada indivíduo: Problemas de aprendizagem, sofrimentos psíquicos das mais variadas espécies, acompanhamento educacional adequado e etc. Aqui também enfrentaríamos um problema filosófico de grande escala, se nos perguntarmos o que entendemos por “normal”, e não é nosso objetivo perdermo-nos neste tema.

Quando falo sobre o desenvolvimento humano, e me refiro a “desenvolvimento normal”, quero me referir ao fato de que, cada sujeito tem um ritmo de desenvolvimento psicológico que lhe é próprio, todavia, este sujeito está inserido em uma cultura que dita tais etapas de desenvolvimento. O que defendo é a tese de que o desenvolvimento humano é cultural, na medida em que é a cultura que determina a velocidade da estimulação recebida pelo corpo, enquanto infraestrutura que responde a esta.

Parece difícil? Vou exemplificar, sem precisar ir muito longe: basta perguntar aos nossos pais ou avós como era a infância na época destes que logo logo receberemos palavras nostálgicas do tipo “eu brinquei de boneca até os meus 16 anos”, ou eu “jogava gude até meus 17 anos”, e várias coisas do gênero. E podemos colocar estes exemplos ao lado de vários outros, em diferentes culturas, desde as mais repressoras às mais liberais, através dos tempos.

O que digo é que, cada cultura, conforme a sua necessidade, trata o que hoje conhecemos como infância de seu próprio modo: Em sociedades primitivas, ou caçadoras, ou em constante litígio, a infância parece ser um período cada vez mais encurtado ou até mesmo inexistente, na medida em que os pais precisam ensinar os seus filhos a se “tornarem guerreiros” quão breve possível. Ou mesmo em sociedades campesinas onde mesmo a despeito das necessidades do trabalho do lar, as crianças possuem estimulação referente à cultura que vivem, podendo desfrutar deste período de “aprendizado da vida adulta” por mais tempo.

Não se trata de fazer juízo de valor sobre o quão adequado é ou não ter um período de infância mais curto ou mais longo, já que existe o fato de o ser humano possuir uma plasticidade biológica e cultural impressionantes e talvez ainda desconhecidas. Todavia, existem várias consequências de se ter, dentro de uma cultura que “dita” a normalidade do desenvolvimento, uma infância atropelada. Vários psicólogos e psiquiatras tem se esforçado para compreender os efeitos do Retardo Mental na vida social dos indivíduos (Vasconcelos, 2004; Schoen-Ferreira  & colaboradores, 2010; Bridi & Baptista, 2012), ao passo que parece ser muito difícil encontrar estudos semelhantes na área do desenvolvimento “precoce”.

O que eu pergunto é: tal atropelamento do desenvolvimento humano não trará consigo “efeitos colaterais” no mínimo difíceis de lidar? Ou ainda, não estrangulará afetos de forma irreparável? Como não tenho todas as respostas do mundo, deixarei este dilema para os psicólogos do desenvolvimento responderem, entendendo que, para o surgimento de respostas essenciais é preciso que surjam perguntas igualmente essenciais.

E para os pais, irmãos ou familiares fica o alerta: Como está o desenvolvimento de nossas crianças?

Referências

Bridi, F. R. S., & Baptista, C. R. (2012). Deficiência mental e pesquisa: atualidades e modos de conhecer. IX Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul.

Schoen-Ferreira, T. H., Hanazumi, A., Lobo, F. S., Abreu, H. G., Acrani, I. O., & Martelet, M. R. F. (2010). Dificuldades de aprendizagem e retardo mental: estudo de caso. Revista de Psicologia, 1(1), 33-42.

Vasconcelos, M. M. (2004). Retardo mental. Jornal de Pediatria, 80(2). S71-S72.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A importância de aprender a dizer “não” para os filhos



Este talvez seja um dos temas mais comentados nas mídias por psicólogos, relacionado ao desenvolvimento infantil. Isso porque parece que há uma grande dificuldade dos pais dessa geração na árdua tarefa de impor limites aos seus filhos.

O senso comum, por sua vez, é cheio de receitas mágicas e de achismos sustentados por crendices populares reforçadas por séculos de uma cultura educacional pobremente estimulada, o que leva ao estabelecimento de diversos mitos e inverdades sobre a criação dos filhos.

O problema é que os pais parecem cada dia menos preparados para lidar com tarefas que, há algumas gerações eram muito simples. Vários podem ser os fatores para isso, como a reorientação do sentido e do significado da pater/maternidade para as famílias contemporâneas, sendo que alguns autores já discutem tais propostas teórica e historicamente (Mansur, 2003; Moura & Araújo, 2004).

Para muitos psicólogos do desenvolvimento humano, a questão da imposição de limites psicológicos para a ação da criança era um assunto de extrema importância, pois estava diretamente ligada ao aspecto moral civilizatório.

O pai da psicanálise e, sem dúvida, um dos maiores teóricos da psicologia, Freud, discutiu em seu texto “O Ego e o Id” (Freud, 1923/2009) o estabelecimento de uma estrutura psíquica chama “Superego” que era a responsável pela internalização das regras sociais, ensinadas pela família e posteriormente, pela sociedade como um todo. Todavia, esta estrutura só se estabelecia a partir do momento em que fosse resolvido o que o autor chamou de Complexo de Castração (embora o complexo de castração seja algo que se atualize constantemente, há uma fase na vida, onde ele se resolve em conjunto com o complexo de Édipo, fundando o superego) (Fenichel, 1981).

O que o Complexo de Castração evidencia é a necessidade da imposição dos limites através dos “nãos” colocados como barreiras pelos pais entre a criança e o objeto de seu desejo. Oras, mas a grande questão é que não se trata de um processo tão simples assim: Geralmente os pais possuem muita dificuldade de dizer não para os seus filhos pela incapacidade que os mesmos possuem de lidar com suas próprias frustrações infantis, projetando sobre os mesmos as suas angústias não tratadas. Com isso, chegou-se ao cúmulo de, no senso comum, pregar-se que o “não” era prejudicial à educação dos filhos.

Oras, o “não” não é prejudicial como é necessário para o desenvolvimento de uma criança psicologicamente saudável! Uma criança precisa entender, desde cedo que, o mundo não é a extensão de seu corpo, e que o mesmo não se move conforme a sua vontade, e isso só é feito através destes “cortes psicológicos” que são estabelecidos através do “não”. Esta dinâmica de estabelecer sucessivos “nãos” é muito importante para que a criança aprenda desde cedo a lidar com outro fenômeno igualmente natural e comum à todos os mortais, o narcisismo (mas isso é outra história).

O ponto é que, o saudável estabelecimento de uma relação que compreende os limites através de “nãos” é necessário para criação de uma pessoa cada vez mais consciente dos seus limites, dos do próximo e, assim ter um futuro adulto com cada vez maior noção de civilidade.

Referências

Fenichel, O. (1981). A teoria psicanalítica das neuroses. São Paulo: Atheneu.

Freud, S. S. (2009). O Ego e o Id. Em, Edição Standart das Obras Completas de Sigmund Freud, Tomo XIX. São Paulo: Imago.

Mansur, L. H. B. (2003). Sem filhos: a mulher singular no plural. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Moura, S. M. S. R., & Araújo, M. F. (2004). A maternidade na história e a história dos cuidados maternos. Psicologia, ciência e profissão, 24(1), 44-55.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche e estágio em terapia sistêmico-relacional de casais e famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento pela Brown University (Estados Unidos) e pela Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.